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baixapombalina - blog sobre as polí­ticas de intervenção na Baixa Pombalina

 

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terça-feira, outubro 26, 2004

 

| O Rei Encoberto tão-baixinho- que-ninguém-o-vê, o Imperador que-se-esconde-nas-alturas e o Gil que-goza-com-a-situação |

 


O antigo Largo de Camões que-não é-o-d'os-Lusíadas, O Rei Encoberto tão-baixinho- que-ninguém-o-vê, o Imperador que-se-esconde-nas-alturas e o Gil que-goza-com-a-situação - eis o que se oferece a um transeunte que entra na Baixa pelo antigo Passeio Público que hoje deu em Avenida da Liberdade e que termina nos Restauradores - uma avenida cujos prédios são quase todos espanhóis ou para lá caminham! …
Poucos, mesmo poucos se apercebem que a fachada neomanuelina e neo-árabe da estação do Rossio tem escarrapachada muito terreamente uma “minguada” estátua de D. Sebastião, um Rei com um sonho “respeitável” cujo “destino não deu deferimento”; sem sebastianismos, acho que seria uma memória para colocar noutras alturas, embora nos tempos que correm mais pareça um guerreiro de guarda à estação que fechou por culpa de um túnel e ninguém o relacione com a Batalha de Alcácer-Quibir; ele também está por tudo, em vez dos 17000 soldados que o acompanharam em 1578 vê os 17000 carros entrarem diariamente na Baixa em 2004, em vez do nevoeiro que marcou tantas vezes o seu regresso sente o ácido da poluição no seu corpo petrificado, em vez da glória do Quinto Império do Bandarra, de Vieira e de Pessoa assiste à reabilitação da Baixa de todos nós.
Em frente do Encoberto vemos o Largo de Camões [hoje de D. João da Câmara] para onde dá a fachada O. Do Teatro D. Maria II; este Camões não é o Luís Vaz que escreveu Os Lusíadas mas o dr. Caetano José da Silva Souto Maior, o Camões, corregedor do bairro do Rossio no reinado de D. João V. Se assim não fosse, o largo ainda continuaria a ter o nome do corregedor, até porque no tempo do desaparecido rei o Rossio ser mais “Rocio” do que é hoje.
Eis-nos agora perante o desgracioso monumento colocado no centro da Praça do Rossio [sublinho Rossio, que vem de “Rocio” e não de um qualquer imperador que nunca tivemos!]; trata-se de um monumento de 27,5 metros de altura, infelizmente composto de envasamento, pedestal, coluna e estátua, sendo o pedestal de mármore de Montes Claros, a coluna de pedra de lioz de Pero Pinheiro e a estátua de bronze; na base do pedestal estão figuras alegóricas que representam a Justiça, a Prudência, a Fortaleza e a Moderação - coisas que dizem representar as qualidades de D. Pedro IV mas que não têm nada a ver com aquele busto em uniforme de general, coberto com o manto da realeza, a cabeça coroada de louros, ostentando na mão uma Carta e a olhar não-sei-para-onde [dizem alguns, para o extinto Cais das Colunas - reminiscências de outro Quinto Império???]. Já no século XIX Eça sobre ele escreveu: "Vossa Majestade está no alto de uma coluna, esguia, polida e branca como uma vela de estearina, e mostra, equilibrando-se sobre uma bola de bronze, um papel, a Carta - ao clube do Arco do Bandeira. É a quem Vossa Majestade a mostra. O clube do Arco do Bandeira pela sua atitude, modesta e digna, parece não dar por tal. Vossa Majestade está com a espada na bainha. Vossa Majestade passa à posteridade com um rolo de papel na mão - como um tabelião ou um vale. Nada que lembre o soldado. É uma estátua - doméstica".
Mas esta estátua com “o tom baço e pálido de uma vela de estearina colossal e apagada” é um D. Pedro a fingir; na verdade, como já aqui dissemos e a Revista História no seu último número também o indicia , pairam sérias dúvidas sobre aquela figura que hoje se admite tratar do Imperador Maximiliano do México. Seja um ou outro, tanto faz “lá tão alto ninguém repara se é Pedro ou Maximiliano”, a não ser Gil Vicente que do cimo do Teatro D. Maria II ri “às gargalhadas” de todo este fingimento nacional. Penso que é disso que ri o mestre Gil - não dos projectos que se lançam para a reabilitação da Baixa e que-parecem-nunca-mais-avançar; aqui o assunto é sério e ainda é demasiado prematuro para perdermos a esperança. Nesse aspecto, somos persistentes como as ábsides das ruínas da Igreja do Carmo !...

[desenhos de:http://sylvain.bourgois.free.fr]

Comments:
Delicioso. Agora falta pensar nos 17000 carros!
 
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